Abria os olhos.
Desinstalava-se a preguiça.
As retinas descansadas.
Aviões expeliam trovoadas.
O céu cheio não de nuvens.
O gato não em cima do sofá.
Do lado de fora da janela. Nada.
Pequenas gotas de chuva.
Contorções num jogo de crianças.
Rebentamento. Solidão.
Bandos de aves.
Barcos de pesca abandonados.
Largados à deriva. Os bandos.
Espalhados no céu agreste.
Se o tempo parasse...
Não dormia no sofá da sala esta noite.
Não tinha frio.
Borboleta em casúlo esquálido.
A montra não vazia de contornos.
Vazia de sangue.
As janelas desproporcionadas de sombras.
Os pássaros: adormecidos nos recantos da cidade.
Dois pinguins patinando no gelo.
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
A chuva a cair
a porta fecha-se
o céu aninha-se
a persiana desmaia
a sala escurece
celebramos a sombra
a tua pele desliza no sofá
só se ouvem sussurros
e a chuva a cair.
o céu aninha-se
a persiana desmaia
a sala escurece
celebramos a sombra
a tua pele desliza no sofá
só se ouvem sussurros
e a chuva a cair.
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
O pianista desiludido
calça-se
descalça-se
toca.
veste o fraque
despe o fraque
toca.
senta-se
levanta-se
toca.
abre a tampa
fecha a tampa
toca.
põe o pé no pedal
tira o pé do pedal
toca.
ouve.
silêncio.
abre a janela
fecha a janela
calça-se
veste o fraque
senta-se
abre a tampa
põe o pé no pedal
toca.
ouve.
fecha a tampa.
descalça-se
toca.
veste o fraque
despe o fraque
toca.
senta-se
levanta-se
toca.
abre a tampa
fecha a tampa
toca.
põe o pé no pedal
tira o pé do pedal
toca.
ouve.
silêncio.
abre a janela
fecha a janela
calça-se
veste o fraque
senta-se
abre a tampa
põe o pé no pedal
toca.
ouve.
fecha a tampa.
sexta-feira, 24 de abril de 2009
Sobrevivência*
afugenta os pássaros, deixa-os voar.
pede tristeza, liberta saudades.
espera pelo apito do comboio
para virar costas à estação.
serena os ânimos no epicentro de um tornado.
assiste-se no direito de Ser.
resiste-se, desce pela colina até
se perder sozinha no descampado.
contemplando-se, a poesia sobrevive
nas arestas das palavras.
*mais um poema escrito na "ressaca" das Quintas.
pede tristeza, liberta saudades.
espera pelo apito do comboio
para virar costas à estação.
serena os ânimos no epicentro de um tornado.
assiste-se no direito de Ser.
resiste-se, desce pela colina até
se perder sozinha no descampado.
contemplando-se, a poesia sobrevive
nas arestas das palavras.
*mais um poema escrito na "ressaca" das Quintas.
sábado, 18 de abril de 2009
Deitada na areia
Chovem no teu corpo pedaços de vida.
As letras deslizam pelo peito.
Dedos franzinos entrelaçados:
A poesia aninha-se na palma das tuas mãos e vive.
As letras deslizam pelo peito.
Dedos franzinos entrelaçados:
A poesia aninha-se na palma das tuas mãos e vive.
quinta-feira, 9 de abril de 2009
Quebram-se as ondas
Quebram-se as ondas nos dedos descalços.
Invadem-se interstícios.
Arranham-se mistérios ao final do dia.
O vento bate e cega. Volto para trás.
Mais um dia passou.
O futuro dos dias nasce-me passado.
Invadem-se interstícios.
Arranham-se mistérios ao final do dia.
O vento bate e cega. Volto para trás.
Mais um dia passou.
O futuro dos dias nasce-me passado.
sexta-feira, 27 de março de 2009
Tenho medo da ida
Tenho medo da ida.
Não tenho medo do retorno.
Tenho medo do riso.
Não tenho medo do choro.
Tenho medo da rua.
Não tenho medo do passeio.
Tenho medo do castigo.
Não tenho medo do recreio.
Tenho medo da vida.
Não tenho medo da morte.
Tenho medo do azar.
Não tenho medo da sorte.
Tenho medo da fome.
Não tenho medo da sede.
Tenho medo de um espaço aberto.
Não tenho medo de uma parede.
Tenho medo de um não.
Não tenho medo de um sim.
Tenho medo do princípio.
Não tenho medo do fim.
Não tenho medo do retorno.
Tenho medo do riso.
Não tenho medo do choro.
Tenho medo da rua.
Não tenho medo do passeio.
Tenho medo do castigo.
Não tenho medo do recreio.
Tenho medo da vida.
Não tenho medo da morte.
Tenho medo do azar.
Não tenho medo da sorte.
Tenho medo da fome.
Não tenho medo da sede.
Tenho medo de um espaço aberto.
Não tenho medo de uma parede.
Tenho medo de um não.
Não tenho medo de um sim.
Tenho medo do princípio.
Não tenho medo do fim.
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
O sol põe-se, derrotado, na praia...
O sol põe-se, derrotado, na praia.
Desfio solilóquios junto ao paredão
amassado pelas águas revoltas.
As flores murcham na entrada de nossa casa
uma ternura de faz de conta.
Os sinos fogem da torre da igreja na hora do adeus
e o silêncio nas paredes descura o passado.
Lenços carpidos. Soluços. A fonte sem água.
Tenho-te em mim para sempre.
O nosso amor tornou a vida breve.
Desfio solilóquios junto ao paredão
amassado pelas águas revoltas.
As flores murcham na entrada de nossa casa
uma ternura de faz de conta.
Os sinos fogem da torre da igreja na hora do adeus
e o silêncio nas paredes descura o passado.
Lenços carpidos. Soluços. A fonte sem água.
Tenho-te em mim para sempre.
O nosso amor tornou a vida breve.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
Palavras soltas
O sal na tua pele habita silêncios derretendo nas arestas.
As palavras perdidas. Soltas.
Os pássaros desatentos em voos escalados.
Os nossos destinos melindrados de si próprios.
Cofres arrombados na sombra vertem segredos.
As palavras soltas. Perdidas.
As palavras perdidas. Soltas.
Os pássaros desatentos em voos escalados.
Os nossos destinos melindrados de si próprios.
Cofres arrombados na sombra vertem segredos.
As palavras soltas. Perdidas.
Semáforos irrequietos...
Semáforos irrequietos
anseiam movimento.
Passadeiras descalças
esperam passada ante passada.
As luzes da noite
desvanecem-se nos candeeiros,
enquanto os sinos
tocam lamentos no fim da madrugada.
As gaivotas ao longe
respiram o mar,
e a cidade acorda lentamente
espreguiçando ruelas e avenidas.
E nós... de braço dado,
despedimo-nos da noite em claro,
com saudades já sentidas.
anseiam movimento.
Passadeiras descalças
esperam passada ante passada.
As luzes da noite
desvanecem-se nos candeeiros,
enquanto os sinos
tocam lamentos no fim da madrugada.
As gaivotas ao longe
respiram o mar,
e a cidade acorda lentamente
espreguiçando ruelas e avenidas.
E nós... de braço dado,
despedimo-nos da noite em claro,
com saudades já sentidas.
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
Sonhos vagabundos
A lua está cheia.
Como cheios estão os meus sonhos.
Vagabundos de luxo
passeando nas estrelas.
Como cheios estão os meus sonhos.
Vagabundos de luxo
passeando nas estrelas.
terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
Ambivalências
Borboletas dobram a esquina.
Abrem as asas. Desespero.
Caules de heras pregados na parede soltam-se
enquanto um sorriso assoma na varanda.
A consciência parte-se em dois.
As borboletas partem.
Os caules partem.
Sozinho batalho o mundo.
Abrem as asas. Desespero.
Caules de heras pregados na parede soltam-se
enquanto um sorriso assoma na varanda.
A consciência parte-se em dois.
As borboletas partem.
Os caules partem.
Sozinho batalho o mundo.
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